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A mostrar mensagens de Agosto, 2010

as águas da terra (3)

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SOFALA
Quem visita hoje a Praia Nova não acredita que, há trinta anos, ali circularam canoas e pescadores. Era menino e naquelas águas andei remando, deambulando por riachos cercados de árvores altas de mangal branco. Eu era pequeno, o mundo era grande. As marés eram o nosso relógio. Erguiam-se com tal convicção que o mar parecia ter apetites de devorar a cidade.
Visito hoje a mesma praia, no litoral da Beira, e interrogo-me se foi mesmo ali que me inventei ser marinheiro. Porque hoje se instalou ali um mercado informal e não há vestígio dos cenários das minhas aventuras.
A canoa afundou-se no tempo, as árvores evaporaram-se e onde havia um espaço a perder de vista, hoje tudo é pequeno, cobertura de ruas, barracas e um formigueiro de gente. Não me ocorre nostalgia. Os lugares nascem e renascem. Não existe morte, não há razão para haver luto. Como se emergisse desse outro tempo, uma garça branca levanta voo e cruza a minha lembrança.

IN "Pensageiro Frequente", Mia Couto, 2010, Ca…

as águas da terra (2)

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"MAPUTO
Maputo tem uma dívida permanente com o rio Umbeluzi. A cidade bebe das suas águas. Subo de canoa, contra a corrente, e vou parando nas margens lodosas. Ali, em pleno estuário, o Umbeluzi é rio ou é mar? As águas são salobras, as marés comandam, a vegetação nas margens são típicos mangais. Estamos mais em ambiente marinho que fluvial.



Vejo, então, o pequeno pastor trazendo os bois que se apressam para a margem. Parecem conhecer o provérbio local que diz: "O boi que chega primeiro é o que bebe água mais limpa." O menino senta-se sob uma sombra mais pequena que ele. De uma sacola encardida retira uma xigovia. Sopra na pequena cabaça e faz soar a improvisada flauta. A melodia, confesso, era monocórdica.


Para mim, naquele momento, soava como uma sinfonia. E acenei, da canoa. Não me respondeu. Não me percebeu o gesto. Entendeu, sim, que eu lhe pedia a cabaça. Ainda hesitou, por um momento. Mas, de súbito, fez lançar pelo ar a xigovia. Com algum esforço, juntei ambas as…

as águas da terra (1)

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Vou partilhar convosco, a partir de hoje, alguns textos do livro "Pensageiro Frequente", de de Mia Couto, minha mais recente leitura. Espero que apreciem tanto como eu, pelo menos!




"Niassa- Vê do outro lado?- Do outro lado?- Sim, do outro lado é o Malawi.- Mas, para mim, o outro lado é ainda água.Um lago quer-se do tamanho de um olhar, uma mancha redonda e azul num mapa. Este lago superou as margens, saltou de dimensão. É um mar. As ondas batendo-me nas pernas confirmam esse engano. Eu sempre quis ter um mar pequeno, um mar portátil, de trazer pelos sonhos. Não será ainda este. Adormeço em Metangula e ao longe escuto o bater das ondas no areal. A casa torna-se um barco. Assim, até o sonho nos adormece."



IN "Pensageiro Frequente", Mia Couto, 2010, Caminho (outras margens) Fotos do Lago Niassa em http://picasaweb.google.com/marvaldemar/Niassa#

amor

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o teu rosto à minha espera, o teu rosto
a sorrir para os meus olhos, existe um
trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos são finas e claras, vês-me
sorrir, brisas incendeiam o mundo,
respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos,
este dia será sempre hoje na memória.

hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas,
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.

José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão" Foto Google Imagens