as águas da terra (3)

SOFALA

Quem visita hoje a Praia Nova não acredita que, há trinta anos, ali circularam canoas e pescadores. Era menino e naquelas águas andei remando, deambulando por riachos cercados de árvores altas de mangal branco. Eu era pequeno, o mundo era grande. As marés eram o nosso relógio. Erguiam-se com tal convicção que o mar parecia ter apetites de devorar a cidade.

Visito hoje a mesma praia, no litoral da Beira, e interrogo-me se foi mesmo ali que me inventei ser marinheiro. Porque hoje se instalou ali um mercado informal e não há vestígio dos cenários das minhas aventuras.

A canoa afundou-se no tempo, as árvores evaporaram-se e onde havia um espaço a perder de vista, hoje tudo é pequeno, cobertura de ruas, barracas e um formigueiro de gente. Não me ocorre nostalgia. Os lugares nascem e renascem. Não existe morte, não há razão para haver luto. Como se emergisse desse outro tempo, uma garça branca levanta voo e cruza a minha lembrança.


IN "Pensageiro Frequente", Mia Couto, 2010, Caminho (outras margens)
Fotos Google Imagens

Comentários

Andri Alba disse…
Hola, Guapo. Bonito texto este que nos compartes aquí, esa garza que alza el vuelo y cruza por tu mente, no la dejó en blanco, la dejó con este hermoso texto.

Un beso y gracias por visitarme!

Andri
Luís Coelho disse…
Boa noite amigo
Tudo muda e o progresso que todos procuramos vai apagando no tempo e no espaço as nossas memórias e também os nossos conhecimentos de outro tempo.
Quantas recordações de menino por aqui na aldeia. Até o toque dos sinos da igreja hoje são diferentes.
Todo o passado nos construiu, mas é no presente que vivemos com esperança num futuro melhor.
AC disse…
Mia Couto é um excelente cicerone, sem dúvida.
Diga-me, meu caro Joaquim, também andou por Moçambique noutros tempos?

Abraço
OutrosEncantos disse…
"... eu era pequeno, o mundo era grande..." :))), encantadora expressão!!

"... os lugares nascem e renascem, não há razão para lutos..."!! :)

Venho saber de ti, que há muito não te vejo, ou é essa a sensação que tenho...

Venho também dizer-te que tens selinho para levantar aqui:

http://meusamigosseusmimosmeusencantos.blogspot.com/

Beijinho, amigo!
Marilu disse…
Querido amigo, lindo texto, embora o progresso mude o lugar, as recordações de criança, essas nunca mudam...Beijocas
Os tempos são outros, mas o que vale são as recordações.

beijooo.
Triste Flor disse…
Eu tbm gosto de recordar lembranças e lugares, as coisas mudam tão rápido, por isso que devemos aproveitar os momentos, pq são tão efêmeros, adorei poeta, beijos grandes.
angela disse…
Parecia-me que ele falava das praias que conheci quando criança. Aconteceu a mesma por aqui e por quase toda a America Latina. Temos um crescimento populacional enorme e tudo se transforma numa rapidez vertiginosa. Conheci Cancun em 1997 e era uma ponta de areia que avançava para o mar e quando se chegava na sua extremidade via-se o mar na frente, e dos lados, um mar azul turquesa bem claro como é a cor do Caribe e estavam construindo o primeiro hotel. Hoje acho que só tem hotel. O mesmo se dá por aqui, temos que achar um pedacinho de areia para sentar.
Agora, ele fala disso tão bonito...
beijos
OutrosEncantos disse…
Obrigada Quicas pelo teu carinho lá no meu canto!
Beijo.
Sonhadora disse…
Meu querido amigo
as paisagens mudam...mas as recordações ficam para sempre.
Obrigada pelo carinho de sempre.

beijinhos
Sonhadora
Graça Pereira disse…
Amigo
A Beira, capital de Manica e Sofala, é especial para mim. Ali passei muitas das minhas férias, onde tinha família... É verdade que por ali andava ou navegavam canoas, onde hoje se erguem prédios...O Rio Chiveve que cortava parte da cidade é prova disso...mal cheiroso mas com uma ponte de ferro muito bonita por cima dele...Da Beira, costumava-se dizer: " Beira, a cidade que o homem conquistou ao pântano"...
Por todos estes momentos de leitura e recordações, o meu KANIMAMBO!!
Beijo
Graça

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