O cão da praia


Da varanda do apartamento, em longo e reconfortante espreguiçar matinal, entrevia-se a cor da bandeira no areal: estava pintada de verde – podia-se nadar, as águas estariam mansas, na maré baixa – contradizendo-se naquela manhã de verão pois, qual nortada das costas do norte do país, o vento a arrepiava, soprando os veraneantes para longe do mar, ao abrigo de desagradáveis banhos de areia.
A ordem era para aguardar que o dia crescesse e, mais maduro, trouxesse a calma prometida na véspera. Então, acessórios a tiracolo, seria hora de invadir as areias macias e quietas, passada a ventania!

Não fora esse incómodo temporário, a rotina de veraneio teria seguido seu curso, impávido e pontual: o passeio a pé à beira mar, de mão dada, serpenteando entre as ondas para habituar o corpo à temperatura da água, os encontros e “olás” mais ou menos demorados com conhecidos de férias, os primeiros mergulhos na volta e, finalmente, a hora do banho a sério. Era o desafio da natação, exercício para recuperar do sedentarismo do ano de trabalho, seguido do abraço à toalha estendida na areia bem quente, pare secar e bronzear.

No areal, grupos de “vizinhos”, ainda que só de ocasião, testavam amizades novas, talvez efémeras ou, quiçá, capazes até de resistir à realidade pós-férias que, então, se pretendia bem distante – aqui, o presente era tudo! Magotes de crianças de colónias de férias e outras escolas traziam, a espaços, alguma algazarra ao sossego reinante. O sol tornava-se mais abrasador e a sombra dos corpos, diminuindo rapidamente, aconselhava algum resguardo. Em espaço escolhido à chegada, o guarda-sol ficara de sentinela às cadeiras que, protegidas do sol, estavam disponíveis para o repouso ou para a leitura, quando não se proporcionavam conversas mais ou menos interessantes com alguém ali próximo, sempre bem ao abrigo do calor do meio-dia.

Naquele dia, porém, uma outra presença se fez notar impondo-se, mansa e docemente. Debaixo de uma das cadeiras, partilhando a sombra possível, um cão já aparentando idade avançada, tinha-se instalado e dormia um sono, profundo mas, aparentemente, perturbado. A respiração era ofegante, abdominal, levantando a suspeita de que tivesse a vida em risco. Valeu, na hora, o testemunho de quem já o conhecia e, descansando os mais aflitos, informou que o pobre animal, abandonado por ali já não se sabia quando, se tornara também dono daquele areal.

Ano após ano, em ameno convívio com os veraneantes, conquistava a atenção dos visitantes estivais. No resto do ano, os pescadores iam garantindo que resistisse às agruras do tempo, alimentando-o e abrigando-o sempre que precisava. Teria nome, talvez mas, órfão do carinho que merecia e privado do lar que em tempos também lhe teria pertencido, era conhecido por todos como o “cão da praia”. Também neste verão, como nos anteriores, o cão da praia ganhou novos donos que, pelo menos por alguns dias, não lhe regateavam cuidados e carinhos com que adoçavam o salgado do mar em que diariamente se banhava.

Foto: Google Imagens

Comentários

Malu disse…
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