13 de janeiro de 2013

Amores perfeitos - uma história quase de gente



Era uma vez um jardim, uma flor e um jardineiro. Um jardim com muitas flores, o ano todo, todas as estações do ano, cada ano. Uma flor, um amor-perfeito, uma entre tantas mas, afinal, única!

Emanuel era um jardineiro cuidadoso que, apesar dos seus naturais limites, não poupava no carinho com que tratava todas as maravilhas do seu jardim. Esmerava-se nas suas canseiras, fizesse sol ou chuva, calor ou frio, para que nada faltasse às suas crias como, ternamente, lhes chamava. Todas as manhãs, ao cantar do galo, era vê-lo apressado para chegar antes dos primeiros raios de sol e, brilhantes ainda das gotas do orvalho, poder deleitar-se com a beleza das pétalas coloridas, entre a verdura refrescante dos canteiros.

Tudo fluiria sem outro sobressalto para além dos humores da natureza, não fora o jardineiro ter elegido, entre todas aquelas flores igualmente belas, um amor-perfeito que se encolhia, tímido, a cada um de seus especiais carinhos, de seus olhares apaixonados – era de paixão que se tratava! Que tinha feito essa linda flor para merecer esta atenção única do zeloso jardineiro? Aos olhos de Emanuel, dedicado como era a todas as flores de todos os canteiros do seu jardim, esse amor-perfeito aparecia como, único, “perfeito”, fazendo jus ao seu próprio nome.

Nenhuma das flores tinha razão de queixa de Emanuel, apesar dessa especial dedicação por aquele amor-perfeito: nunca lhes faltava com qualquer cuidado, nunca lhes regateava ternura e carinho, jamais puderam sentir-se prejudicadas – ele dava-lhes tudo o que devia embora, ao amor-perfeito, desse muito mais que isso! E não tardou que a inveja começasse a turvar o ambiente no jardim, entre as outras flores, despeitadas e invejosas dessa relação privilegiada.

Bem protestaram com Emanuel a sua atitude, bem tentaram desiludi-lo quanto ao carácter dessa flor tão vulgar, como lhe diziam insistentemente, afinal, apenas uma pequena e vaidosa flor lá do jardim. Vaidosa, sim, afirmavam a uma voz, era no que se tinha tornado a eleita do coração de Emanuel: até lhes fazia pena!

Sem êxito naquelas diligências, mudaram de estratégia. Insinuando-se como as maiores amigas da incauta flor, passaram a tentar desiludi-la quanto aos sentimentos do jardineiro insistindo, ao mesmo tempo, para que olhasse em volta, se libertasse dessa prisão em que se deixara enredar e, então, visse bem que outros jardineiros a cobiçavam, quiçá bem mais diligentes e cuidadosos que Emanuel, afirmavam.

Os humores da natureza, em sua imprevisibilidade, fizeram o resto. No meio de dificuldades inesperadas, qualquer sentimento pode fraquejar, quaisquer promessas podem esfumar-se no ar, qualquer mentira, de muito apregoada, pode aparecer como verdade inquestionável. E um dia, que até poderia ter sido igual a tantos outros, o amor-perfeito cedeu, deixando que outro jardineiro, quase desconhecido, a levasse à aventura, deixando Emanuel inconsolável e desiludido: nunca pensara que as outras flores pudessem, algum dia, ter razão nos seus persistentes e tão incómodos avisos.

Nunca mais o jardim teve a mesma frescura e exuberância. Nem quando, breves dias depois, a flor que partira, tão feliz, regressou sozinha e ferida. Vinha amarfanhada, esmagada pelo peso da desilusão dessa aventura, humilhada até, agora, pelas pretensamente tão amigas de apenas alguns dias antes.

Emanuel tinha sofrido, ele também, enorme desilusão. Mesmo assim, redobrando seus cuidados, tentou restituir à flor a frescura e exuberância perdidas e devolver-lhe a alegria que, entre tantas Primaveras, espalhara no jardim com as suas coloridas pétalas, agora murchas e sem brilho. Com grande carinho e dedicação, de novo juntos, haviam de sarar as feridas abertas, bem no fundo de cada um. Só então, por muitas mais Primaveras, o amor voltaria a florir no jardim!

Amor-perfeito, porém, apenas seu nome: da linda história de outros tempos, o jardim guardaria, para sempre, uma profunda saudade!

Joaquim do Carmo (a publicar)

(Imagem da net)

2 comentários:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

O amor cega as pessoas mas o ciume mata.
Gostei da história.

Peço desculpa pelas ausências.
Não são ciumes nem outra enfermidade.
Apenas falta de tempo ou simplesmente desencontros.

Um bom abraço de amizade. Continuarei a guardá-lo cá dentro da linha dos amigos do peito

Malu Silva disse...

Uma mescla de realidade com as possibilidades das ilusões. Mas que a estrela da tarde tudo promete. Eu adorei esta tua forma de história.
Um abraço, meu amigo. Também fazia tempo que não vinha por aqui, mas não pense que esqueço deste teu canto.