13 de Junho de 1948 - Carolina


Entre o tear e a cozinha, a vida de Carolina corria ligeira, feliz, louvando a riqueza de um lar onde se respirava amor verdadeiro, alento para as dificuldades próprias de tudo o que começa, dia-a-dia realizando sonhos, pequeninos para quem tudo tem, imensos para quem do pouco se habituou a fazer muito!
No quinteiro, as cordas de secar a roupa enfeitavam-se de coeiros lavados de fresco no lavadouro das Corgas, alvos e brilhantes de envergonhar o Sol. Há meses que, lenta e muito alegremente, a casa por detrás das ‘Alminhas’ se enfeitava de Primavera, mais florida que jamais alguma outra, preparando a vinda do primogénito.
Na véspera, o dia tinha sido um não mais acabar de dores a ponto de, temendo estar próxima a hora, a Ti Linda do Rendeiro já ter ido a correr chamar a parteira para a filha, não fosse o neto aparecer sem dar tempo para mais preparação!
- Oh minha filha, tem calma e paciência, ‘inda tens para a noite toda, tenta descansar e logo me chamas de volta, afirmou a Ti Silvina, bem experimentada nestas andanças!
Chegado do emprego, o marido da Carolina, ante todo o alvoroço que encontrou em casa, já adivinhava que essa noite seria mal dormida e, do jeito que pôde, lá foi ajudando a esposa a preparar-se, o melhor possível, para o evento que se avizinhava!
Longa foi a noite, de facto! Felizmente que a parteira vivia ali perto porque, bem cedinho, foi preciso acordá-la a correr para acudir a Carolina: pelas sete e meia da manhã desse já distante dia de Santo António chegava, com as orvalhadas, pequenino, o primogénito da Carolina e do Joaquim, para lhes encher as vidas de alegrias, por certo mas, também, das canseiras que um novo rebento sempre traz consigo!

Quicas (Joaquim do Carmo)
Foto: Junto ao poço da casa de meus avós maternos, por baixo duma velha laranjeira eu, com cerca de oito meses de idade!

Comentários

Lídia Borges disse…

A Poesia a passear-se pelo texto, com pezinhos de lã. A delicadeza de um contar rente ao coração.

Belíssimo!

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