5 de junho de 2010

se tu soubesses, meu amor...

embalado nas ondas do mar,
calmo e silencioso,
em noite calma de verão,
cantei à lua,
pensando em ti:

se tu soubesses
como te amo!...

se tu soubesses,
meu amor,
ah, eu não teria de te dizer:
eu seria noite,
tu serias lua!…

se tu soubesses
do meu amor!...

se tu soubesses,
meu amor,
bastaria amar-te assim,
como a noite à lua,
todas as noites!...

se tu soubesses,
meu amor, minha vida!...

se tu soubesses,
meu amor,
eu seria… o que tu quisesses,
todos os dias da minha vida:
teu eterno amor!...


Foto: "Half a moon shows", in Olhares da Ju (http://olhares.aeiou.pt/juaninha8)

1 de junho de 2010

em louvor das crianças

Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.


A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais - a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis - elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue.


O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus.

Eugénio de Andrade, in 'Rosto Precário'






28 de maio de 2010

um momento... para ser!

Quis partir, manhã cedo, com o vento abanando as árvores, estremunhadas, quase sonâmbulas, à procura da calma que havia perdido, há tanto tempo, por entre o bulício da cidade!

Já não cabia em si qualquer espaço para falar consigo mesmo, a mais ínfima reserva de privacidade que, qual gota de água em boca sequiosa, tanta falta lhe fazia!

As tardes de Francisca, jardins por onde, antes, desabrochavam as mais belas e, para ela, encantadoras melodias à vida, às palavras, ao sonho e, quanta saudade, ao amor, foram-se tornando áridas, desertas de qualquer oportunidade de crescimento, realização interior, abertura ao desconhecido, espaço de infinitude ou janela aberta para o desafio.

De nada valiam, agora, protestadas amizades e insuspeitas manifestações de carinho por parte dos resistentes que, invariavelmente, batiam à sua porta e, apesar da indiferença, insistiam em vir, dia após dia, marcar presença a seu lado, esperança desvanecendo-se de cada vez que a única resposta era o desejo de fugir, desaparecer, “voar”!

Desta vez, o dia seria mesmo aquele novo despertar que tanto ansiava; a curva da estrada não seria mais obstáculo intransponível, barreira que a sua fraca coragem a tinha impedido de ultrapassar.

Decidida a enfrentar-se e aos seus medos, a permitir-se o risco, Francisca iniciou o assalto ao desconhecido: soltas as amarras, velas desfraldadas, qual caravela em aventura mar adentro, deixou-se levar por esse vento madrugador, impetuoso e companheiro amigo para a viagem por demais adiada.

Partia em busca do sítio remanso que, noite após noite, habitava seus sonhos inquietos e vazios: haveria que trazer, de novo, brilho aos seus dias, agora tão sombrios e confusos; haveria que recuperar para si aquela alegria que transfigurava os seus olhos, agora tristes e, tantas vezes, ninho de lágrimas, em rios de cristalina e contagiosa felicidade; haveria que reinventar o calor de suas fiéis e desinteressadas amizades e o carinho revigorante de suas paixões mais sinceras.


Haveria, sim!... Afinal, aquilo que, até então, parecia tão difícil e inatingível, tornara-se realidade inadiável: ali mesmo, ao virar da esquina, desperta pelo vento forte dessa manhã, Francisca descobrira que a sonhada viagem não passaria de um gesto de seu querer mais profundo, um salto, arriscado, talvez, mas decisivo, sobre o abismo que, do alto de sua tristeza e melancolia, construíra ao seu redor, afastando-a dos que tanto lhe queriam e, pior que tudo, de si própria e da sua força de viver! Haverá... que encontrar-se!


Fotos: Google Imagens

22 de maio de 2010

incandescências





Eis o que eu aprendi
nesses vales
onde se afundam os poentes:
afinal, tudo são luzes
e a gente se acende é nos outros.

A vida é um fogo,
nós somos suas breves incandescências.


in "Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra", de Mia Couto







Foto: Google Imagens
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17 de maio de 2010

desilusão


quando te vi, não quisera
ver-te, embora o desejasse:
quão bom era estar à espera
mas, melhor fora não esperasse!


sei que água não conhecera
que tanta mágoa lavasse
mas, logo, à fonte correra,
se meu coração deixasse!


quis ele, antes, que a quimera,
sonho lindo, em mim, sonhasse,
mesmo morta a confiança:


s' inda em tal dia soubera
amares-me, se eu te amasse,
reviveria uma esperança!


Foto: Google imagens