4 de setembro de 2010

setembro, mês do meu amor de todos os meses




Penélope

mais do que um sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

e recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.

David Mourão-Ferreira
Foto: Google Imagens

2 de setembro de 2010

chamo-Te porque tudo está ainda no princípio

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio 
E suportar é o tempo mais comprido. 

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
 
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu quero ver.
 

Peço-Te que sejas o presente.
 
Peço-Te que inundes tudo.
 
E que o teu reino antes do tempo venha.
 
E se derrame sobre a Terra
 
Em primavera feroz precipitado.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Foto: Olhares da JU (http://olhares.aeiou.pt/juaninha8)

26 de agosto de 2010

as águas da terra (3)

SOFALA

Quem visita hoje a Praia Nova não acredita que, há trinta anos, ali circularam canoas e pescadores. Era menino e naquelas águas andei remando, deambulando por riachos cercados de árvores altas de mangal branco. Eu era pequeno, o mundo era grande. As marés eram o nosso relógio. Erguiam-se com tal convicção que o mar parecia ter apetites de devorar a cidade.

Visito hoje a mesma praia, no litoral da Beira, e interrogo-me se foi mesmo ali que me inventei ser marinheiro. Porque hoje se instalou ali um mercado informal e não há vestígio dos cenários das minhas aventuras.

A canoa afundou-se no tempo, as árvores evaporaram-se e onde havia um espaço a perder de vista, hoje tudo é pequeno, cobertura de ruas, barracas e um formigueiro de gente. Não me ocorre nostalgia. Os lugares nascem e renascem. Não existe morte, não há razão para haver luto. Como se emergisse desse outro tempo, uma garça branca levanta voo e cruza a minha lembrança.


IN "Pensageiro Frequente", Mia Couto, 2010, Caminho (outras margens)
Fotos Google Imagens

20 de agosto de 2010

as águas da terra (2)

"MAPUTO

Maputo tem uma dívida permanente com o rio Umbeluzi. A cidade bebe das suas águas. Subo de canoa, contra a corrente, e vou parando nas margens lodosas. Ali, em pleno estuário, o Umbeluzi é rio ou é mar? As águas são salobras, as marés comandam, a vegetação nas margens são típicos mangais. Estamos mais em ambiente marinho que fluvial.




Vejo, então, o pequeno pastor trazendo os bois que se apressam para a margem. Parecem conhecer o provérbio local que diz: "O boi que chega primeiro é o que bebe água mais limpa." O menino senta-se sob uma sombra mais pequena que ele. De uma sacola encardida retira uma xigovia. Sopra na pequena cabaça e faz soar a improvisada flauta. A melodia, confesso, era monocórdica.



Para mim, naquele momento, soava como uma sinfonia. E acenei, da canoa. Não me respondeu. Não me percebeu o gesto. Entendeu, sim, que eu lhe pedia a cabaça. Ainda hesitou, por um momento. Mas, de súbito, fez lançar pelo ar a xigovia. Com algum esforço, juntei ambas as mãos e apanhei o fruto da nsala. Ainda hoje guardo a xigovia desse menino que não terá nome mas que, para mim, tem a história de um encontro."

A pedido do amigo Luís Coelho, apresento um video do YouTube sobre a "xigovia"




IN "Pensageiro Frequente", Mia Couto, 2010, Caminho (outras margens)
Fotos do Rio Umbeluzi: Google Imagens

19 de agosto de 2010

as águas da terra (1)



Vou partilhar convosco, a partir de hoje, alguns textos do livro "Pensageiro Frequente", de de Mia Couto, minha mais recente leitura. Espero que apreciem tanto como eu, pelo menos!




"Niassa
- Vê do outro lado?
- Do outro lado?
- Sim, do outro lado é o Malawi.
- Mas, para mim, o outro lado é ainda água.
Um lago quer-se do tamanho de um olhar, uma mancha redonda e azul num mapa. Este lago superou as margens, saltou de dimensão. É um mar. As ondas batendo-me nas pernas confirmam esse engano. Eu sempre quis ter um mar pequeno, um mar portátil, de trazer pelos sonhos. Não será ainda este. Adormeço em Metangula e ao longe escuto o bater das ondas no areal. A casa torna-se um barco. Assim, até o sonho nos adormece."




IN "Pensageiro Frequente", Mia Couto, 2010, Caminho (outras margens)