22 de setembro de 2010

mensagem ao meu amor

Meus olhos, voando, andaram
Com o Sol, para poente,
Apagando-se, contente,
Da luz que os teus lhe roubaram.

No céu, com as aves cantaram,
Na terra, foram semente,
Só não cuidaram de gente
Que, só de te ver, cuidaram!

Foram dizer-te o que sente
Meu coração e voltaram
Sem o sol - foi meu presente!

Com ele, o calor deixaram
Do meu peito. E, novamente
Ausentes, tristes ficaram!

Foto: Google imagens

8 de setembro de 2010

... da saudade, um dia distante

Quão breve, para mim, brilhou o dia,
Quão breve junto a ti fui, um instante, 
Tão longa me parece a noite fria
Que nem amor aquece, pois distante!

Quão grande e louca foi minha alegria,
Quão doce e terno o meu viver de amante,
Assim é a tristeza que me guia
Na saudade que, em mim, vive constante!


Oh! Quão ditoso o tempo em que sentia
Meu coração e o teu um só, vibrante
Do amor que, mesmo longe, se irradia!

Pudera revivê-lo agora, errante,
A ti, mulher formosa, eu pediria:
Sê, sempre, a meiga flor que eu ame e cante!




Foto: Forget me not, in http://olhares.aeiou.pt/juaninha8

4 de setembro de 2010

setembro, mês do meu amor de todos os meses




Penélope

mais do que um sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

e recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.

David Mourão-Ferreira
Foto: Google Imagens

2 de setembro de 2010

chamo-Te porque tudo está ainda no princípio

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio 
E suportar é o tempo mais comprido. 

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
 
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu quero ver.
 

Peço-Te que sejas o presente.
 
Peço-Te que inundes tudo.
 
E que o teu reino antes do tempo venha.
 
E se derrame sobre a Terra
 
Em primavera feroz precipitado.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Foto: Olhares da JU (http://olhares.aeiou.pt/juaninha8)

26 de agosto de 2010

as águas da terra (3)

SOFALA

Quem visita hoje a Praia Nova não acredita que, há trinta anos, ali circularam canoas e pescadores. Era menino e naquelas águas andei remando, deambulando por riachos cercados de árvores altas de mangal branco. Eu era pequeno, o mundo era grande. As marés eram o nosso relógio. Erguiam-se com tal convicção que o mar parecia ter apetites de devorar a cidade.

Visito hoje a mesma praia, no litoral da Beira, e interrogo-me se foi mesmo ali que me inventei ser marinheiro. Porque hoje se instalou ali um mercado informal e não há vestígio dos cenários das minhas aventuras.

A canoa afundou-se no tempo, as árvores evaporaram-se e onde havia um espaço a perder de vista, hoje tudo é pequeno, cobertura de ruas, barracas e um formigueiro de gente. Não me ocorre nostalgia. Os lugares nascem e renascem. Não existe morte, não há razão para haver luto. Como se emergisse desse outro tempo, uma garça branca levanta voo e cruza a minha lembrança.


IN "Pensageiro Frequente", Mia Couto, 2010, Caminho (outras margens)
Fotos Google Imagens