5 de outubro de 2010

ternura

Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós! 

David Mourão Ferreira

Foto: Google Imagens

2 de outubro de 2010

Ah, poder ser tu, sendo eu!




Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa

Foto: Google imagens

22 de setembro de 2010

mensagem ao meu amor

Meus olhos, voando, andaram
Com o Sol, para poente,
Apagando-se, contente,
Da luz que os teus lhe roubaram.

No céu, com as aves cantaram,
Na terra, foram semente,
Só não cuidaram de gente
Que, só de te ver, cuidaram!

Foram dizer-te o que sente
Meu coração e voltaram
Sem o sol - foi meu presente!

Com ele, o calor deixaram
Do meu peito. E, novamente
Ausentes, tristes ficaram!

Foto: Google imagens

8 de setembro de 2010

... da saudade, um dia distante

Quão breve, para mim, brilhou o dia,
Quão breve junto a ti fui, um instante, 
Tão longa me parece a noite fria
Que nem amor aquece, pois distante!

Quão grande e louca foi minha alegria,
Quão doce e terno o meu viver de amante,
Assim é a tristeza que me guia
Na saudade que, em mim, vive constante!


Oh! Quão ditoso o tempo em que sentia
Meu coração e o teu um só, vibrante
Do amor que, mesmo longe, se irradia!

Pudera revivê-lo agora, errante,
A ti, mulher formosa, eu pediria:
Sê, sempre, a meiga flor que eu ame e cante!




Foto: Forget me not, in http://olhares.aeiou.pt/juaninha8

4 de setembro de 2010

setembro, mês do meu amor de todos os meses




Penélope

mais do que um sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

e recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.

David Mourão-Ferreira
Foto: Google Imagens