16 de outubro de 2010

dez réis de esperança

Se não fosse esta certeza 
que nem sei de onde me vem,
 
não comia, nem bebia,
 
nem falava com ninguém.


Acocorava-me a um canto,
 
no mais escuro que houvesse,
 
punha os joelhos à boca
 
e viesse o que viesse.


Não fossem os olhos grandes 
do ingénuo adolescente,
 
a chuva das penas brancas
 
a cair impertinente,


aquele incógnito rosto,  
pintado em tons de aguarela,
 
que sonha no frio encosto
 
da vidraça da janela,


não fosse a imensa piedade 
dos homens que não cresceram,
 
que ouviram, viram, ouviram,
 
viram, e não perceberam,


essas máscaras selectas,  
antologia do espanto,
 
flores sem caule, flutuando
 
no pranto do desencanto,


se não fosse a fome e a sede 
dessa humanidade exangue,
 
roía as unhas e os dedos
 
até os fazer em sangue.


António Gedeão


Foto: "É sol", Olhares da Gui (http://olhares.aeiou.pt/GuiOliveira)

9 de outubro de 2010

teus olhos, minhas estrelas


Era uma noite clara de luar,
No céu brilhavam, belas, as estrelas
Eu, em silêncio, só de as contemplar
Era feliz, pois via-te, ao vê-las!

A luz, dourando o doce azul, no ar,
Mais que da Lua se espalhando e delas
Era, a meus olhos, teu saudoso olhar,
Única luz que acende minhas trevas!

Não estava só, sentindo palpitar
Em mim, por ti, um coração que anelas:
Não é possível estar só, de tanto amar!

A brisa suave, a soprar nas janelas,
Trazia o som de tua voz, sobre o mar
E teu brilho, amor, apagava as estrelas!

Foto: Google imagens

5 de outubro de 2010

ternura

Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós! 

David Mourão Ferreira

Foto: Google Imagens

2 de outubro de 2010

Ah, poder ser tu, sendo eu!




Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa

Foto: Google imagens

22 de setembro de 2010

mensagem ao meu amor

Meus olhos, voando, andaram
Com o Sol, para poente,
Apagando-se, contente,
Da luz que os teus lhe roubaram.

No céu, com as aves cantaram,
Na terra, foram semente,
Só não cuidaram de gente
Que, só de te ver, cuidaram!

Foram dizer-te o que sente
Meu coração e voltaram
Sem o sol - foi meu presente!

Com ele, o calor deixaram
Do meu peito. E, novamente
Ausentes, tristes ficaram!

Foto: Google imagens