9 de março de 2012

Algumas reflexões sobre a Mulher – Eugénio de Andrade



Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva,
arrastando
os seus mantos na poeira das estrelas.

Animais sonâmbulos,
dormem nos rios, na raiz do pão.

Na vulva sombria
é onde fazem o lume:
ali têm casa.
Em segredo, escondem
o latir lancinante dos seus cães.

Nos olhos, o relâmpago
negro do frio.

Longamente bebem
o silencio
nas próprias mãos.

O olhar
desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.

Sobre si se debruçam
a escutar
os passos do crepúsculo.

Despem-se ao espelho
para entrarem
nas águas da sombra.

É quando dançam que todos os caminhos
levam ao mar.

São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar,
o branco da rosa.

Quando o galo canta
Desprendem-se
para serem orvalho.

Eugénio de Andrade

Foto “Enlightened”, da Joana

1 de março de 2012

“Sim, quero!”



O dia amanhecera chuvoso, quase ameaçando tempestade. A noiva, tão linda que era, mesmo não precisando, tinha marcação no cabeleireiro e, sem dúvida, ainda brilharia mais com seus olhos verdes de princesa primaveril! A manhã foi longa, arrastou-se por entre tímidos assomos do sol até à hora da cerimónia.
Junto do altar, naqueles minutos de espera, tão breves mas, tão longos, os momentos felizes e marcantes do seu namoro tão lindo ali, presentes, vivos: a primeira troca de olhares, tímidos, meio envergonhados mas profundos, daqueles que marcam para a vida; os primeiros passeios, às escondidas, mãos entrelaçadas em recantos de jardim; os segredos apaixonados, as promessas de amor eterno, os sonhos partilhados, os anseios e as dúvidas, as dolorosas saudades nas separações a que as voltas da vida já haviam obrigado, os raros arrufos de amor, os primeiros beijos e abraços, a sede de entrega plena, os projectos que se começaram a construir a dois… um filme, qual conto de fadas, passando apressado à sua frente, ali mesmo!
Finalmente, a visão mais ansiada: ao fundo da igreja, a noiva, encantadora, deslizando feliz no seu vestido de princesa, com os sobrinhos do noivo de meninos das alianças a segurar-lhe o véu longo e, tão brevemente, o sonho há tanto acarinhado, realizado: “Sim, quero!”… “Sim, quero!”… e, para a vida toda, toda uma vida em mútua doação!
Passaram trinta e sete anos! Hoje, num raro olhar para trás, seriam muitas as bobines necessárias para reproduzir, como em filme, todos os momentos conquistados nesta caminhada, os melhores, os menos bons, os piores – na vida a dois cada dia, todos os dias, um novo desafio, um repetido apelo à renovação dos votos: em cada filho, em cada conquista, em cada dificuldade, em cada perda… sempre novas oportunidades para recomeçar, como se fosse o primeiro dia, como se pudesse ser o último!
Passaram trinta e sete anos e, como o primeiro dia, este dia é único e irrepetível: como em cada manhã desta vida partilhada contigo, hoje é dia de dizer, com a mesma força, com mais força ainda, se possível:
“Sim, quero!”… “Sim, quero!”… ainda e sempre!

Foto “Entrelaçadas”, da Joana

27 de fevereiro de 2012

Voltaste



Sempre te via, como em sonhos, perto,
Meu pensamento anulava o distante:
Era teu rosto, belo, estou bem certo
Mas, não sorria, nem mesmo um instante!

Tudo era triste, meu viver incerto:
Ave sem poiso, coração errante,
Eu e saudade, juntos, um deserto
- Só a esperança vivia, constante!

Mas, eis voltaste, meu peito vibrante
Em si não cabe, voa, ao longe, aberto:
Encontrou a luz, qual Sol, do Levante!

Mulher formosa, por mais que te cante,
O meu poema diz pouco, decerto:
Teu sorriso é vida, estrela brilhante!

Joaquim do Carmo
in "Amanhecer pelo fim da tarde"

19 de fevereiro de 2012

Amor ausente



Quando a distância afasta os corações
E, de um sorriso, só resta a saudade,
Tão leve é o brilho da felicidade
Que, de alegria, só dá ilusões!

Nem o trinar de suaves canções
De aves, louvando sua liberdade,
Vence a tristeza que minh’alma invade,
Nem verdes árvores nem, do sol, clarões!

Tudo, na ausência, é solidão agreste,
Cair da folha, vento, tempestade,
Noite sem estrelas, rouca voz distante!

Oh doce amor que, à vida, me prendeste:
Vem, dá alento à chama que, em mim, arde!
Vem, sê aurora em meu peito vibrante!

Joaquim do Carmo
in "Amanhecer pelo fim da tarde"

Foto “When the dark overcomes the light”, da Joana

11 de fevereiro de 2012

Ainda é tempo...


Boa tarde!?
Ainda a vida tenta impôr-se no incerto do novo dia, já me parece que tudo passou, ainda por cima bem ao lado de mim, sem o esboço de um gesto, sequer, num corropio constante de minutos, numa avalanche de dúvidas sobre cada sim, ou não, ou talvez… enfim, na indecisão sobre o instante que não pode ficar só por aí!
Parece complicado, talvez até seja, só que num país em que cada amanhã pode vir a desmentir todos os “hoje e agora”, cada ontem corre o risco de nunca ter existido, cada sim pode, afinal, ter pretendido expressar um rotundo não, para onde devemos olhar? Será que apenas nos resta ver com os olhos dos iluminados pela paisagem dita democrática, aí já negação de si mesma, aí já delapidada da sua razão de ser? Ou… será preciso, cada vez mais, dizer efectivamente não às mentiras-pretensas-verdades, às afirmações de apenas intenções, aos projectos apenas fachada?
Eu quero pensar que ainda é possível gritar a verdade, ou o que dela podemos alcançar, a espaços que seja, para afirmar o direito a ser cidadão do meu país, aqui e agora!