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A mostrar mensagens de Janeiro, 2012

Reverso do tempo

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As páginas revolvem-se, impacientes, quando sentem distante o calor dos dedos, eternos prisioneiros da pena. Passam-se tantas coisas nos intervalos dos dias! Pautam-se incontáveis linhas no recôndito das manhãs e, a cada momento, quais campainhas desafinadas, as palavras ainda não escritas ecoam nos ouvidos, teimosas, suplicando a sua afirmação. Percorridos os minutos, ébrios de todo e cada segundo já sorvidos, em catadupa, até ao sobressalto da frase capaz de traduzi-los, eis se revelam, em redemoinhos de letras, gota a gota, sobre a brancura inocente. Na confusão das emoções, pressentidas mas jamais ressentidas, as linhas preenchem-se, construindo-se na sombra das que as precederam, já saciadas de tempo! Presente, só aquele instante, distraído de sua plenitude, no verso da página gravada de véspera…

Foto da Ju: “Round  & Round”

A Sebenta

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Da janela do meu quarto, há já muitos anos, a linha do horizonte teimava ali bem perto, descansando sobre o viaduto da nova auto-estrada. Havia horas do dia para todos os humores. Bem cedo que, hábitos criados na infância me fizeram madrugador, com o sol do lado oposto do meu quarto, dava para acompanhar os pássaros esvoaçando, ainda mal despertos, sobre as copas das árvores do pinhal que, à minha esquerda, ao invés de encurtar as vistas, lhes dava outra vida e abria o peito à esperança. De tarde, um pouco mais quente e acolhedor, o ar acalmava tudo ao redor e, então, em tal sossego, emoções, ideias, sentimentos podiam passear-se, serenamente, pelo meu ser, convidando à reflexão, por vezes, à criação, quase sempre. Era a hora de minha Sebenta de eleição voltar a ser confidente zelosa, discreta, companheira inseparável, anos a fio guardiã de meus versos, pensamentos, contos ou histórias de vida, vividas ou, quantas vezes, apenas sonhadas. E o fim de tarde? Eram horas, às vezes apenas m…