9 de outubro de 2010

teus olhos, minhas estrelas


Era uma noite clara de luar,
No céu brilhavam, belas, as estrelas
Eu, em silêncio, só de as contemplar
Era feliz, pois via-te, ao vê-las!

A luz, dourando o doce azul, no ar,
Mais que da Lua se espalhando e delas
Era, a meus olhos, teu saudoso olhar,
Única luz que acende minhas trevas!

Não estava só, sentindo palpitar
Em mim, por ti, um coração que anelas:
Não é possível estar só, de tanto amar!

A brisa suave, a soprar nas janelas,
Trazia o som de tua voz, sobre o mar
E teu brilho, amor, apagava as estrelas!

Foto: Google imagens

5 de outubro de 2010

ternura

Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós! 

David Mourão Ferreira

Foto: Google Imagens

2 de outubro de 2010

Ah, poder ser tu, sendo eu!




Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa

Foto: Google imagens