24 de fevereiro de 2018

Invento-te nas manhãs claras...



"Invento-te nas manhãs claras dormindo ainda em sonhos liquefeitos.

Arredondo os braços
que procuram as noites
inventadas à procura de outro tempo.
O manto da minha aurora
cobre os segredos proibidos de uma casa que não é tua.
O meu peito é agora um planalto
onde as nascentes secaram
matando de sede todas as flores por nascer.
Não nasceram flores, nasceram cactos,
continentes de água,
que guardam as flores esquecidas entre dunas.
E invento-te nos lábios das ondas
que pronunciam o teu nome
no sibilar sussurrante
da espuma .
Inventar-te-ei ainda
quando o nevoeiro te esconder
nos lençóis da noite ou
no regaço da bruma .
Serei os olhos das estrelas,
caindo na tua face
uma a uma."

Manuela Barroso, " Eu Poético III "

Foto: "Forbidden paradise", Mira Nedyalkova

23 de fevereiro de 2018

Promessa

Aproxima-se o 43º. aniversário do meu casamento! Até lá, irei publicar um poema por dia! Dia 1 de Março, espero publicar um inédito meu! Hoje,



"Promessa
És tu a Primavera que eu esperava,

A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante."

Sophia de Mello Breyner Andresen in "Antologia", Circulo de Poesia Moraes Editores, 1975
Foto: "Spring has sprung" - Joana Do Carmo

5 de maio de 2017

Montanha



São muito raros os meus 'intervalos', na rotina de dias cansados e, mesmo assim, felizes, com que a vida me tem presenteado! Nesses momentos, descansados e despretensiosos, o papel joga ao esconde-esconde com a pena, um jogo intermitente que, não fora a persistência da pena

- ou será do 'esconderijo'?! Não sei mas... também não vem para o caso! -

sim, persistência, o papel jamais mudaria de aspecto, tão pálido tem andado há demasiado tempo! E aquela indecisão no alinhar das palavras, poesia, prosa, coisa nenhuma... bem, hoje, como tantas outras vezes, só Sophia para me ajudar a escalar a 'Montanha'!

E partilho-a convosco:

"MONTANHA

Vi países de pedras e de rios
Onde nuvens escuras como aranhas
Roem o perfil roxo das montanhas
Entre poentes cor-de-rosa e frios

Transbordante passei entre as imagens
Excessivas das terras e dos céus
Mergulhando no corpo desse deus
Que se oferece, como um beijo, nas paisagens."

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Poemas escolhidos"
Imagem: Quadro: Ravine, de Vincent van Gogh, 1889

Joaquim do Carmo