13 de março de 2009

primavera, ainda


Era um recanto de jardim florido, como se espera, em manhã de primavera! A sinfonia de cores anunciava momentos felizes, encantos de perene jovialidade, gritos de renovada esperança e coragem - ali não havia espaço para tristezas: era um novo dia e cada flor, mais e mais viva, pujante no gozo da luz renascida, era um convite à alegria!

Chegava-se de mansinho e, mergulhando naquela quietude, desafio de promessas por cumprir, ficava-se com desejos de eternidade,

(e como isso de eternidade, por vezes, incomoda!...)

capazes de tudo e do nada, do melhor e do pior, mesmo do sem sentido - consentido, contrariado até mais não poder ser - a doer se parados, a magoar quando agitados, inquietos na curiosidade do devir, esse que sempre e só foi e será na possibilidade de ser, já incapazes de querer mais do que o "quero", calados, quietos, repletos!

será isso que esperam de nós as flores numa manhã de primavera?
será para isto que se perturba o silêncio de um recanto de jardim numa manhã de primavera?
será possível ter-se algo a ver com as flores no recanto do jardim?

Cada gesto, cada grito, cada silêncio, tudo ecoa nessa nesga de eternidade - ou será finitude? - que arrebata, que toca e foge, qual arrepio no âmago do instável, frágil, pequenino! Se ainda é possível sentir algo, talvez só isso, mais nada além ou aqui, mais o quê, ou quem, ou até como, só isso, esse arrepio a fustigar, a desafiar a inércia, a clamar por solidariedade:

ninguém pode ficar nesse recanto assim, sem mais!
ninguém pode ficar impune se incerto!
ninguém!

Quase sem se dar conta, a manhã passou, a tarde escondeu-se com a luz por detrás do horizonte e a noite veio devolver o silêncio perdido ao recanto assustado do jardim. Já não haveria mais espaço para a inquietação nessa experiência de plenitude!

já não haverá mais amanhãs de silêncio nas "primaveras" de cada vida?
já não se voltará a escrever sobre as flores nos recantos de jardins?
já se deixará florir os jardins em cada manhã de primavera?
já ninguém se vai incomodar com os desafios nas manhãs que florescem?

A sinfonia de cores anunciava momentos felizes, encantos de perene jovialidade, gritos de renovada esperança e coragem... ainda é manhã de primavera!

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20 de junho de 2008

memórias de um castanheiro

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Há muitos anos plantado no meio do pomar, eis que o castanheiro vê próximo o seu fim. Está velho, já curvado ao peso dos anos, tantos, prestando à humanidade os mais relevantes serviços.

Enquanto, atarefados, os serradores o vão cortando, ele começa a recordar todos os trabalhos por que passou, todas as dificuldades que encontrou durante a vida. No Inverno, o vento o forçara várias vezes, obrigando-o a inclinar-se sob a sua poderosa acção; a chuva, caindo impiedosamente, escorrera pelos seus braços até cair no chão, alagando o terreno e tornando mais sensível a sua raiz. No Verão, vergado ao peso dos seus frutos, queimado pelo sol ardente, quantas vezes clamara por alguma gota de água!
Mas, por entre tais recordações, também se lembrava das alegrias que o haviam animado: quanta felicidade sentira ao ver-se florido e verdejante na Primavera, livre estalajadeiro dos romeiros e trabalhadores nas tardes escaldantes de Verão, merenda apreciada nos magustos do Estio!

Estava velho! Ao longo da sua vida, já muitas outras árvores tinham caído a seu lado, deixando como lembrança da sua existência a sua madeira; então, mais uma vez se alegrava fortemente: também ele, depois de derrubado, iria aquecer com o seu lenho alguma casa escondida e fria do monte, ou fornecer aos marceneiros matéria-prima que pudessem lapidar!

Rendia-se, por fim, mas satisfeito, por ver que tinha sido, em toda a sua vida, um elemento útil no meio do mundo.


(... e são tantas as saudades!)



6 de fevereiro de 2008

volto já

:
Devagarinho, a luz estende seus braços ao longe, até onde os olhos, ainda meio adormecidos, conseguem enxergar. É de sonhos que despertam as árvores, as flores, as aves! É de viagens por mundos impossíveis que arribam as maravilhas desta realidade, tão improvável como certa, tão imprevisível como esperada, acessível como a utopia, desafio, jogo de contingências, porém, promessa de imortalidades!

Não sei! Não desejo mais que perguntar, que alimentar de dúvidas mais este esforço pela esperança - afinal, a luz voltou, por quanto tempo? Não deixo de estar onde me deixei, donde me expus à maré, para ficar, ou partir, ou regressar! As aves, essas vão e vêm até que os ventos as deixem ficar, ou partir, ou regressar! As flores, essas abrem, ou fecham, ficam ou transcendem-se, até não voltarem! As árvores, essas, morrem de pé, depois de muito persistirem, vestidas ou despidas pelas estações!

Vou ficar - afinal, tenho mais uma oportunidade!