14 de março de 2018

SORRISOS



Sorrisos


Sentei meus olhos no crepúsculo,
esse cantinho onde se escondem os dias...
cansados!

Vi entre as nuvens reflexos do dia:
imagens, sons, gestos...
gravados!

Esses raios de sol alaranjados,
promessa de amanhã renascido,
adormeceram!

Restavam os sorrisos do dia,
persistentes, corajosos, para embalar...
os sonhos!

Joaquim do Carmo (a publicar)

(imagem de "O Tempo das Palavras")

1 de março de 2018

UM AMOR COMO O NOSSO


Era de sonho a visão de seus cabelos, soltos ao vento, deslizando suavemente pela praia, o mar brilhando nos seus olhos, ao som dos alegres e estridentes gritos das gaivotas em voos rasantes, anunciando o fim da tarde!
Era doce o olhar que lhe lançava quando, embevecido, parava no tempo e pedia que esse presente se eternizasse e, pleno de felicidade, ganhasse o amanhã de cada dia de suas vidas!
Era terna melodia o som da sua voz quando, às suas juras de amor, respondia, com matreiro e deleitado sorriso, “meu doce mentiroso”!
Era de luz o rasto que deixava, caminhando ao luar, nas quentes noites de Agosto!
Era um hino ao amor cada momento de ternura e carinho, cada beijo, cada encontro, ansiado como se fosse o último, vivido sempre intensamente como se o primeiro!
Qual conto de fadas, história de encantar a que ninguém augurava longa vida, talvez só pelo sentimento de inveja que despertavam, sempre bem juntinhos, mãos dadas desafiando o futuro, o incerto, toda e qualquer contrariedade, felizes, sorriam a cada amanhecer com a alegria de mais um dia para crescer no amor, unidos no propósito de construir o sonhado ninho, secreto aconchego para os filhos que se prometiam e coloriam de fantasia os longos passeios pela cidade, imaginando como vesti-los, calçá-los, mimá-los, príncipes encantados desse reino em construção!
Uma casa solarenga? Um castelo? Um palácio? Talvez! O que fosse… não importava: era a certeza de que, passo a passo, pedra sobre pedra içada, a pulso, do empedrado de cada dia, conquista atrás de conquista, com dificuldades, muitas também, fraquezas tornadas força para a luta seguinte, o caminho apenas se faria caminhando!
Encanto partilhado, uma festa permanente, uma celebração constante do amor enfim, o sonho ia ganhando vida a cada dia e, naquele dia, aquele fim de tarde, já de sonho o tempo todo, veria consumar-se a entrega total, há muito prometida, há tanto desejada!
Como tudo o que começa, nova descoberta a cada carícia, foi suave o toque e delicado, pétala a pétala da bela flor se abrindo, a um tempo generosa e ávida, até deixar de se perceber o começo ou fim dos seus corpos enlaçados, tão unidos e esquecidos de cada qual que, naquele momento então eternizado, se sentiram verdadeiramente um só no amor!
Um momento, apenas, do que se tornaria entrega de uma vida… inteira!

Joaquim do Carmo

Imagem: Pintura de Nadir Afonso

28 de fevereiro de 2018

PERGUNTA-ME


"Pergunta-me 
se ainda és o meu fogo 
se acendes ainda 
o minuto de cinza 
se despertas 
a ave magoada 
que se queda 
na árvore do meu sangue

Pergunta-me 
se o vento não traz nada 
se o vento tudo arrasta 
se na quietude do lago 
repousaram a fúria 
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me 
se te voltei a encontrar 
de todas as vezes que me detive 
junto das pontes enevoadas 
e se eras tu 
quem eu via 
na infinita dispersão do meu ser 
se eras tu 
que reunias pedaços do meu poema 
reconstruindo 
a folha rasgada 
na minha mão descrente

Qualquer coisa 
pergunta-me qualquer coisa 
uma tolice 
um mistério indecifrável 
simplesmente 
para que eu saiba 
que queres ainda saber 
para que mesmo sem te responder 
saibas o que te quero dizer "

Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho'
Foto: Reprodução de um quadro de Tim Parker